Pete Oxford

Linhas de base e monitorização padronizada a longo prazo

Como você pode saber se os seus esforços para proteger as populações de animais selvagens marinhos e os seus habitats críticos são bem-sucedidos? Se você não tem um ponto de partida, é difícil medir um alvo em movimento. Uma pesquisa de linha de base – basicamente uma contagem do que é observado num conjunto de lugares representativos e em determinados pontos do tempo – é usada para avaliar a diversidade e a abundância de espécies de uma região em um determinado período de tempo. Esta linha de base serve como um ponto de referência a partir do qual medimos mudanças ao longo do tempo e em diferentes regiões, incluindo dentro e fora das áreas protegidas, e/ou antes ou depois de um evento específico, como a implementação de uma área protegida ou novos regulamentos.

A MarAlliance realiza, regularmente, inquéritos de base padronizados em Belize, Honduras, Panamá e Cabo Verde, e colabora com parceiros em países como México, Guatemala, Cuba e Micronésia para desenvolver e ajudar a implementar essas pesquisas. Ao nos concentrarmos em “Peixes grandes” que muitas vezes servem como sinalizadores de mudanças no ecossistema, podemos identificar onde a sobrepesca pode estar perturbando o delicado equilíbrio do ecossistema tropical. Nossas descobertas ajudarão a informar os gestores e a moldar as estratégias de conservação para que essas espécies continuem a crescer, assim como as populações humanas que dependem delas.


O pescador tradicional Evaristo Muschamp mostra um otolito recém-extraído coletado como parte de um estudo sobre idade e crescimento da garopa-amarela  Photo: Cameron Rhodes

Biologia das espécies ameaçadas

Determinar a taxa específica de crescimento, o tamanho e a idade da espécie na sua maturidade e a taxa em que se reproduz diz-nos muito sobre sua vulnerabilidade à exploração da pesca. Uma espécie de tubarão de crescimento lento, que só produz 4 crias a cada dois anos, pode não conseguir recuperar-se da intensa mortalidade causada pela pesca. Esta é uma informação especialmente importante para espécies ameaçadas que foram sobreexploradas. Como as taxas de crescimento e a capacidade reprodutiva variam de forma tão ampla entre as espécies, e muitas vezes por região, é extremamente importante estudar o crescimento e a biologia reprodutiva da fauna marinha ameaçada numa base específica da espécie e região em que se encontra.

Através de meios independents e dependentes de pesca, a MarAlliance tem vindo a determinar as taxas de crescimento e a idade da maturidade para espécies como o tubarão Caribenho de recifes, a garopa / mero gigante (Epinephelus itajara) e várias espécies de raias que estão atualmente listadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como tendo dados insuficentes (DD). Os resultados do nosso trabalho foram integrados em artigos científicos, planos de gestão e nas avaliações das espécies.


Uma tartaruga-de-pente marcada por satélite produz informações sobre os seus movimentos à volta do Lighthouse Reef Atoll, Belize. Photo: Pete Oxford

Ecologia espacial das espécies ameaçadas

SA ecologia espacial é o estudo do uso de habitats e ecossistemas de um organismo ao longo da sua vida. Uma variedade de fatores influenciam a ecologia espacial, incluindo: disponibilidade de alimentos, tipo de habitat, estação, atividade reprodutiva e o acto de escaper de predadores. Não é surpreendente que quando um animal cresce e envelhece, muitas vezes muda o seu padrão de uso do habitat. Estudamos a ecologia espacial dos peixes grandes para detectar esses padrões e identificar os habitats que podem ser críticos para o sucesso de suas populações.

À medida que as populações humanas continuam a crescer, a destruição do habitat e a sobrepesca vão mudando a ecologia espacial dos tubarões e raias. Vários estudos têm mostrado que a abundância e diversidade de espécies diminui com o aumento da proximidade de centros populacionais humanos. Um dos grupos de peixes mais vulneráveis são os peixe-serra, e vimos reduções drásticas no habitat preferido para as cinco espécies de peixe-serra (nomeadamente estuários limpos, manguezais e lagoas arenosas). Antigamente comum em todo o Caribe, as espécies de peixe-serra (Pristis microdon e P. pristis) não têm sido observadas nos últimos anos (mais de 25 anos para o P. microdon) e agora são consideradas ecologicamente (ou funcionalmente) extintas em toda a região do recife da Mesoamérica (México, Belize, Guatemala e Honduras). Ao identificar habitats críticos para peixes grandes, esperamos evitar que este padrão continue.

A MarAlliance revelou padrões de comportamento e movimentos de uma grande variedade de espécies selvagens marinhas, incluindo tartarugas, raias-manta, tubarões-baleia e tubarões associados a recifes. Veja a nossa página de publicações para artigos relacionados a esse assunto.


Pescador tradicional, Trace, apanhando peixes ósseos nos recifes de Pohnpei. Photo: Rachel Graham

Pesca sustentável e redução do esforço de pesca

Para os países litorais em desenvolvimento, a pesca de uma variedade de espécies é frequentemente importante para a subsistência, a cultura e a saúde da população humana. No entanto, em muitas regiões, as capturas estão a diminuir e os peixes capturados são cada vez mais pequenos. A coleta de dados das pescarias pode permitir que os pesquisadores identifiquem e abordem problemas para assegurar a saúde contínua das populações de peixes e as comunidades que dependem deles.

As operações de pesca em muitos países tropicais são geralmente de pequena escala, muitas vezes realizadas a partir de pequenos barcos e em áreas de fácil acesso a partir da costa. No entanto, o uso de equipamentos destrutivos, tais como redes e palangres / longline, pode ter uma influência negativa sobre as populações de peixes e pôr em perigo o sucesso das futuras pescarias. Os tubarões são especialmente vulneráveis e facilmente poderão ser apanhados por redes e palangres / longline e são frequentemente alvo de pescadores.

Uma melhor compreensão das pescarias, do esforço de pesca e dos desembarques, juntamente com os fluxos comerciais, ajudará a identificar se essas pescarias são sustentáveis e se cumprem os requisitos das convenções internacionais. Atualmente, não existe conhecimentos de uma pesca sustentável de tubarões e raias nos países tropicais.

A MarAlliance está a trabalhar com vários parceiros de forma a caracterizar a extensão das pescarias dos elasmobrânquios, os mercados associados e os fluxos comerciais. A informação resultante está a ser envolvida novamente nas estratégias de gestão a nível local, nacional e regional, tais como planos de gestão de AMP, gestão específica de espécies, Planos Nacionais de Ação (NPOA), listagem de espécies na Convenção sobre Espécies Migradoras (CMS) e Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES) (NDFs).

Ivy Baremore

Mar profundo: A última fronteira

Os peixes e tubarões que habitam águas com mais de 150m (500 pés) estão entre as espécies menos estudadas nos oceanos do mundo, e as pescarias de profundidade são muitas vezes estabelecidas nessas profundezas antes que qualquer pesquisa relativamente à biologia e ecologia desses animais possa ser realizada. Isto é especialmente problemático para as espécies de fundo, porque elas tendem a crescer de forma mais lenta e a reproduzirem-se mais tarde do que os seus companheiros costeiros, tornando-os, então, menos capazes de se recuperar da sobrepesca. As espécies de tubarão são especialmente vulneráveis, tendo em conta que muitas vezes apresentam uma produtividade muito baixa: por exemplo, alguns tubarões-barroso (Centrophorus granulosus) produzem apenas uma cria por cada ciclo reprodutivo.

Atualmente estamos a realizar pesquisas sobre peixes de profundidade, tubarões e pescarias na Região Meso-Americana (MAR) para saber mais sobre quais as espécies que habitam essa região, como estão distribuídas e como as suas populações podem responder ao aumento dos esforços pesca. A trabalhar com pescadores locais, estamos a realizar algumas das primeiras pesquisas sobre essas espécies na MAR. Esperamos aprender quais são as espécies que podem ser mais vulneráveis à sobreexploração e identificar os habitats críticos que precisam de proteção. Ao longo do caminho, estamos também a preencher os nossos conhecimentos acerca do ecossistema de águas profundas e das variedades das espécies conhecidas e potencialmente até mesmo encontrando novas espécies!


Uma feliz equipa de pescadores recreativos mostra a sua serra (Acanthocybium solandri) antes de coletar os dados relativos ao seu peso, comprimento, condição reprodutiva e otólitos pela equipa da MarAlliance. Foto: Rachel Graham

Pesca recreativa

Muitos peixes desejados por pescadores desportivos ou recreativos são espécies grandes e altamente migratórias. Esses animais são frequentemente superpredadores e os grandes indicadores de saúde oceânica. Por serem altamente migratórios, os peixes desportivos podem ser alvo de pescadores em mais de um país, complicando a sua gestão. Belize tem uma longa história de pesca recreativa no mar aberto, mas atualmente não se conhece o status dos estoques preferidos. Trabalhando com pescadores e nos torneios, a MarAlliance está a ajudar a caracterizar a pesca recreativa no mar aberto em Belize. Isso, para entender melhor o status de nossos estoques de peixes desportivos, especialmente a sua idade e crescimento, reprodução, preferências de habitat, preferências sazonais, dinâmicas da comida e dietas.


Um membro da equipa entrevista um pescador local relativamente às suas capturas e percepções sobre o estado dos recursos pesqueiros  Foto: Gaby Ochoa

Avaliações socioeconómicas

Muitos países tropicais são pobres em dados quando se trata de pescarias ou informações sobre a megafauna marinha. Para preencher essas lacunas e apoiar medidas de gestão de precaução, realizamos avaliações socioeconómicas de uma variedade de pescarias de pequena escala, incluindo peixes associados ao recife, tubarões, meros-gigantes e peixes de águas profundas. Dependendo do grupo visado e das informações necessárias, as pesquisas são moldadas pré/pós, retrospectiva, pesquisas on-line ou reconstruções das capturas.

Os resultados são triangulados com pesquisas de campo independentes da pesca e, sempre que possível, pesquisas de mercado para quantificar melhor a diversidade, distribuição, tamanho e demografia das espécies desembarcadas, bem como a sazonalidade das capturas e os preços de mercado. Uma vez que o consumo de recursos marinhos não é o único indicador relacionado ao valor da vida selvagem marinha, também realizamos pesquisas para avaliar o status do peixe-serra e do turismo de mergulho para ver tubarões-baleia e tubarões de recife. Os resultados foram utilizados para melhorar os esforços de gestão e conservação, incluindo legislação para agregações de criação de peixes de recife, designações de AMP, proteção de tubarões costeiros e associados a recifes, proteção para tubarões-baleia (Rhincodon typus) e tubarões-gata (Ginglymostoma cirratum) e limites de tamanho propostos para a pescaria de mero-gigante (Epinephelus itajara).


A equipa fazendo inquéritos de percepção acerca de tubarões com comunidades costeiras em Honduras.

Avaliações da Percepção Pública

Na busca de melhorar a conscientização pública sobre a vida selvagem marinha e, principalmente, os tubarões, realizamos iniciativas de sensibilização e educação em Belize desde 1999. A partir de 2001, essas iniciativas foram ampliadas para vários países como Madagascar, Micronésia, México, Guatemala, Cuba, e Honduras. No entanto, precisávamos saber se nossos esforços tinham sido efetivos na mudança de mentalidades enraizadas de medo ou desgosto. Também precisávamos de orientação para aperfeiçoar as nossas mensagens de conservação para melhor efetuar mudanças no uso de artes de pesca insustentáveis, como redes e palangres / longline, preferências dos consumidores e administração da megafauna marinha.

Como os tubarões têm sido temidos por muitos e em diversos países do mundo, incluindo Belize, estávamos ansiosos por entender o que está por trás desse medo e posteriormente identificamos estratégias de comunicação para mitigar esse medo. Especificamente, uma pesquisa nacional foi conduzida em Belize para avaliar o conhecimento, as percepções e as preferências de gestão do público em relação aos elasmobrânquios. Foi feito um formato pré/pós padronizado com 25 perguntas. As pré-pesquisas foram realizadas em 2011, antes das atividades de sensibilização e as pesquisas pós foram concluídas no inverno de 2013/14 após uma campanha de sensibilização de 2 anos e meio. Os objetivos desta pesquisa com o público de Belize foram: 1) Identificar níveis de conhecimento, percepções e atitudes em relação aos tubarões; 2) Revelar padrões nacionais de consumo de carne de tubarão; 3) Destacar as opções propostas de gestão e conservação; 4) Avaliar a eficácia das estratégias utilizadas na campanha de divulgação.

Os resultados da pré-pesquisa nos ajudaram a desenvolver e adaptar uma estratégia de sensibiliazação que proporcionou muitas oportunidades para educar e inspirar, e ajudou a expandir nosso alcance para tubarões e raias ao longo do Recife da Mesoamérica. Os resultados indicaram que o público belizeano tem um bom conhecimento básico de tubarões e raias. Infelizmente, quase metade dos entrevistados da pesquisa pós temia tubarões e raias, com mais mulheres temendo tubarões do que homens. Apesar desse medo, mais de 80% dos entrevistados apoiaram a proteção dos tubarões e raias em 2011 e 2014. Os Belizeanos acreditavam que tubarões e raias eram importantes para o turismo e que, portanto, geravam renda para o país. No entanto, ainda precisamos aumentar a conscientização sobre os efeitos nocivos do consumo de carne de tubarão para a saúde, particularmente entre os homens. As comunidades onde o consumo de tubarão foi mais elevado, incluia a cidade de Belize e o sul de Belize.
A inclusão dos inqúeritos de percepção na gestão é uma maneira altamente replicável e estratégica para integrar mensagens de conservação e avaliar esforços de sensibilização, os quais são frequentemente caros e intensivos.


Os tubarões grandes acumulam níveis elevados de metil-mercúrio neurotóxico nos seus tecidos que são transmitidos aos consumidores. Foto: Pete Oxford.

Comer tubarão e outros peixes grandes é saudável para ti?

Já é conhecido que os tubarões, sendo grandes predadores na cadeia alimentar, bem como outros grandes peixes predatórios vão acumulando toxinas adquiridas de peixes e outras presas que comem ao longo de suas vidas. Vários estudos publicados indicam que a carne de tubarão contém altos níveis de metilmercúrio, que é uma potente neurotoxina que é muitas vezes derivada de processos industriais, principalmente o fabrico de cimento.

Os resultados de um estudo recente realizado pelos membros da equipa da MarAlliance indicaram que mais de 80% dos tubarões amostrados no Lighthouse Reef Atoll em Belize estavam acima dos níveis de consultoria da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) de 0,3 partes por milhão (ppm) e mais de 37% estavam acima dos níveis de aviso da Administração Federal de Drogas (FDA) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 1,0 ppm. Pesquisas anteriores sobre os níveis de metilmercúrio no mero-gigante, realizadas em Belize pela MarAlliance, sugerem que os níveis de mercúrio são altos em animais com mais de 55 cm de TL, com muitos excedendo os critérios de assessoria governamental dos EUA para a saúde humana (Evers et al. 2009).

Embora alarmante, esses resultados não são totalmente surpreendentes. Os tubarões e os mero-gigantes são superpredadores conhecidos por biomagnificar as toxinas, incluindo metais pesados como o mercúrio, devido às muitas ligações da cadeia alimentar existentes no ambiente marinho. Nos seres humanos, a absorção de grandes quantidades de mercúrio e a ingestão contínua acima dos níveis aconselhados afetam habilidades cognitivas, memória e deprime os níveis de serotonina.

Os avisos da EPA e da FDA nos EUA sugerem que as mulheres grávidas devem evitar comer peixes, tais como o tubarão e a serra-real, e não comer mais de duas refeições de peixe ou marisco com menor nível de mercúrio por semana, não mais de 336g ou duas refeições médias (ver: What You Need to Know About Mercury in Fish and Shellfish). Devido à possiblilidade de surgirem problemas de desenvolvimento, estes avisos são considerados muito altos para mulheres grávidas e crianças pequenas, indicando 0,12 ppm como o limite aceitável para estes grupos.